Continuo na mesma varanda, vendo a semana começar aqui de cima. Me deu vontade de escrever sobre uma mudança que tem acontecido em mim vagarosamente nos últimos anos: a descoberta da vida simples.
Tive que ir pra cidade grande pra dar valor a vida da cidade pequena. Não fui uma criança criada em apartamento, nem fui daqueles meninos viciados em joguinhos eletrônicos. Meu primeiro computador foi na faculdade, e parei com o vídeo game com 14 anos. Joguei bola na rua por muito tempo, meus amigos aqui em Varginha são os mesmos que foram cultivados nessa época.
A enorme família da minha mãe foi toda criada na lavoura de café do sul de Minas, semeadas [a família e a lavoura] pelo meu avô. Até meus 8 anos, meus avós viviam na roça, enquanto os 14 dos 15 filhos tinham vindo pra cidade, naquele conhecido processo de migração do campo para a cidade ocorrido no Brasil dos anos 70. Além dos meus avós, uma tia também vivia na zona rural, produzindo café em uma fazenda. Foi lá que tive o pouco contato com a vida no campo durante minha infância, em visitas ocasionais aos meus primos, e naquelas festas de família. E foi só.
No meu último ano de faculdade, em 2009, comecei a trabalhar num escritório de arquitetura e patrimônio histórico em Viçosa. Depois, ao mudar para Juiz de Fora, em 2010, continuei a trabalhar na mesma área, desempenhando praticamente a mesma função. Minha percepção começou a mudar aí. Há 3 anos, meu trabalho é visitar pequeninas cidades de Minas, normalmente com a população entre 5 a 10 mil habitantes, conversar com as pessoas, registrar as histórias do lugar. E nestas cidades, a dinâmica do tempo é outra. A vida é simples. Voce é como um alienígena, alguém estranho que é notado por toda a cidade, atrai olhares desconfiados enquanto anda nas ruas. É comum as pessoas te pararem na rua e perguntarem "voce é filho de quem?". Como preciso abordar as pessoas, normalmente em suas casas, sou um observador privilegiado da vida cotidiana e da vida privada do interior. Aos poucos, as pessoas vão se familiarizando com suas visitas – “é o moço do patrimônho” - e aquela conhecida hospitalidade mineira deixa de ser discurso forjado e passa a ser observação científica comprovada.
Minha pesquisa do mestrado também incide sobre a vida no campo. Mesmo estudando o tribunal da Inquisição, uma instituição metropolitana, meu espaço de observação é uma freguesia de Minas no século XVIII. Observar os costumes e a riqueza material das elites coloniais passa diretamente sobre a vida no interior. Donos de engenhos de cachaça, mineradores, comboieiros de escravos que iam de Villa Rica até o Rio de Janeiro no lombo de bestas, homens que viviam a natureza bucólica na sua essência.
Acrescenta-se ainda, as visitas à cidade natal da minha última namorada. Família grande, reunida para o almoço no sítio todo santo sábado, 4 gerações ali conversando sobre as histórias dessa vida. Nos hábitos dos moradores das pequenas cidades, a evolução do vocabulário tende a acontecer muito lentamente. “Chama o retratista...”
Naturalmente, eu não poderia passar ileso a essas coisas tão presentes na minha vida nos últimos tempos. A impessoalidade das pessoas que vivem em uma cidade de mais de meio milhão de pessoas ganha retoques agudos quando volto da cidade pequena, ou quando termino de ler um documento com marcas da vida de um homem que vivia em 1750. Aquela “vida besta” descrita por Drummond, em que um homem vai devagar, um cachorro vai devagar, que eu deixo pra trás quando volto pra casa (Juiz de Fora), me põe reflexivo quando pego um ônibus lotado (inferno com catraca), quando trombo com alguém nas calçadas apinhadas de gente, pessoas que talvez não veja nunca mais. É a impessoalidade dos dias modernos, da vida moderna, que vai corrompendo a gente. Nos grandes centros, as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras. O “bom dia” é cada vez mais mecânico e menos sincero.
Depois que a gente cresce, começa a raciocinar de forma menos comparativa e mais agregadora, começa a perceber que não existe evolução, hierarquia. Começa a desconstruir o discurso retórico do “atrasado e obsoleto” (que talvez seja uma herança iluminista), e passa a enxergar a alteridade. Consigo ver hoje o saber do homem da pequena cidade ou do campo sem pensar que é inferior quando comparado com a cultura oriunda da vida urbana, como a letrada ou acadêmica. Poucas coisas me emocionam mais do que aquele roceiro que prepara o fumo de rolo sentado de cócoras, conhece como a palma da mão os caminhos da terra que o criou, que se enxerga na geografia da vida no campo. Além do mais, esse saber costuma ser acompanhado da simplicidade, e não da arrogância do homem das letras.
Semana passada conheci uma moça que tem uma tatuagem que não poderia traduzir de forma mais perfeita minha filosofia dos últimos tempos: ela tem marcada nas panturrilhas as palavras que formam a expressão latina FUGERE URBEM, o lema dos poetas do arcadismo, uma ode à fuga da cidade para o campo, para a vida em meio a natureza. Pra mim, a cada dia isso faz mais sentido.